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A hora de inverter os papeis
CARMINHA LEVY
Enquanto somos crianças, os pais são nossos ídolos. Na adolescência e no início da vida adulta, nós os consideramos ultrapassados e ignorantes, e não é raro nos afastarmos deles. Porém, quando nossos próprios filhos chegam à adolescência, descobrimos seu real valor, até porque sentimos na pele as dificuldades de sermos pais.
E o que acontece quando eles envelhecem e já não nos ajudam nem materialmente, nem com sua sabedoria de viver, mas, ao contrário, precisam de nossos cuidados? É hora de trocar de papéis, de nos tornarmos pais de nossos pais. Tal mudança, que exige compaixão e empatia, não começa com a informação de que eles sofrem de Alzheimer ou outra doença grave, mas bem antes, quando ensinamos nossos filhos a respeitar e amar os avós. Nessa hora, o bom exemplo é fundamental. Visitar os pais, saborear a massa da "mama" aos domingos não devem ser obrigações e sim uma curtição em que cada geração aprende com a outra. Com certeza os avós sairão remoçados dos encontros. Daí a importância dessa atitude ser cultivada também por eles.
"chega um dia em que nos tornamos pais de nossos pais" |
Para receber amor, apoio e compaixão mais tarde, os avós devem abrir mão de seu egoísmo, que às vezes os leva a evitar ter trabalho com crianças. Avós alegres e participativos fortalecem o vínculo de uma família feliz, em que todos se divertem e cooperam. E a artrite da vovó, em vez de gerar lamúrias, serve para ensinar que podemos superar nossos limites, o que é comprovado pelo bom humor com que ela leva à mesa os pratos preferidos de cada um. Nem o reumatismo impede que ela faça companhia a um neto doente e ajude, com suas histórias mágicas, a diminuir as dores de ambos.
Como avó, faço um apelo: por favor, avós, nada de "no meu tempo!" O seu tempo, se quiser o amor e a compreensão de sua família, é agora! Informe-se (sem críticas) sobre o que os jovens falam, o que cantam, os filmes a que assistem, os desafios que enfrentam. Não é fácil ser jovem hoje em dia. Temos um mundo completamente diferente. Entenda sem julgar. Amor de avó é incondicional, e é sentido assim pelo neto. Você pode ser o refúgio seguro de um atormentado adolescente que contesta os valores dos pais, simplesmente ouvindo-o com o coração.
Seja empático também com a luta pela sobrevivência de seus filhos. Sua sabedoria de vida pode amenizá-la, ajudando-os a ter paciência. Os avós podem ser modelos de integridade e honradez. Conte histórias pitorescas de sua juventude, de como foi um vencedor e manteve as amizades por ter sido sempre honesto em suas transações de negócios e leal com todos.
Se pais e filhos agirem assim, a hora de inverter os papéis não será cruel. Ninguém se sentirá injustiçado, não se ouvirá "por que sobrou para mim esse fardo?" Pois quando a reação dos filhos é essa, os netos se sentem ciumentos dos cuidados dispensados aos avós, os cônjuges abandonados e cria-se um clima caótico na família. Nesses casos dramáticos, muitas vezes o auxílio no cuidado com os velhos vem de noras e genros que, sem o comprometimento de mágoas do passado e por amor a seu cônjuge, dão todo o afeto e o carinho de que o doente necessita, tornando assim mais suave o caminho que todos nós haveremos um dia de percorrer.
CARMINHA
LEVY É ARTETERAPEUTA, PSICÓLOGA JUNGUIANA, MESTRE XAMÂNICA, FUNDADORA E
PRESIDENTE DA PAZ GÉIA, ESCOLA DE XAMANISMO. |
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