OS
POVOS PRIMITIVOS NOS ENSINAM que todos fazemos parte de uma grande rede
na qual estamos responsavelmente ligados. Isso significa que as nossas
ações, inclusive no que se refere à natureza, retornam para nós. Curioso
é que cada vez mais a própria ciência partilha dessa verdade, ancorada
nas recentes descobertas da física quântica. Essa realidade - de que estamos
todos interligados - nos convida a refletir sobre o nosso papel na sociedade
como um todo: desde a comunidade até o núcleo dessa grande rede que é
a família. Vale lembrar que os fortes vínculos que unem os homens se manifestam
desde a aurora da humanidade, quando os primeiros habitantes humanos da
Terra organizavam-se em grupos de forma a juntar forças para conseguir
comida, abrigo e lidar com as intempéries do caos primitivo. Era o tempo
do matriarcado e coube ao feminino, com sua reconhecida força integrativa,
fazer esta liga de união e partilha que deu origem ao conceito primordial
de família que temos hoje internalizado. Essa força ancestral gregária
se revela muito claramente na necessidade que cada um de nós tem de ser
parte de uma tribo - seja ela o par conjugal e os filhos ou grupos religiosos,
políticos, esportivos e comunitários. Saber e nos sentir parte de um núcleo
básico é definitivo para a formação do nosso caráter e define a forma
de nos relacionarmos com o mundo. É no seio da família que construímos,
ou não, uma personalidade harmoniosa que determinará o destino de nossa
afetividade, auto-estima, ideais, enfim, tudo aquilo que faz de nós quem
somos. No caso de uma família disfuncional, todos esses valores se tornam
frágeis perante a vida. É necessário repensar a família, resgatando o
verdadeiro sentido da integração familiar.
Reconhecer
e assumir o próprio papel dentro da família é o primeiro passo para
a cidadania |
O que unia aqueles primeiros grupos humanos era a cooperação mútua e
a divisão das responsabilidades e tarefas. Todos ali eram parte uns dos
outros e como resultado tinha-se uma relação ancorada na integração e
partilha de todos os eventos calamitosos ou ditosos. Reconhecer e assumir
o próprio papel dentro da família é, portanto, o primeiro passo para a
cidadania. Cultivar laços saudáveis de família de sangue ou de espírito
- os amigos - é fundamental, não apenas para a felicidade dos seus membros,
mas também da sociedade, uma vez que são essas mesmas pessoas que fazem
o mundo. Sejamos, portanto, não apenas filho, pai ou mãe; e sejamos sim,
com entusiasmo, parte dessa grande rede cuja principal teia é o amor.
* Carminha Levy é arte terapeuta, psicóloga junguiana, mestre xamânica,
fundadora e presidente da Paz Géia, escola de xamanismo em São Paulo