
Cena da peça As mulheres da minha vida, em cartaz em São Paulo
PODE FICAR ESPANTADA: na minha cidade não havia sequer um teatro. Nenhum lugar onde crianças ou adultos pudessem apreciar uma boa história sendo contada ao vivo, em cores, sons, cheiros, palmas e, quem sabe, vaias. Por isso, minha estréia na platéia foi tardia, eu deveria ter uns nove, dez anos e estava em excursão escolar. Naquele dia iríamos a um lugar especial. Excitadíssimas, pensamos em parques, sorveterias de sabores infinitos ou até numa piscina.
"Com seus desdobramentos, sua capacidade de encantar, seja pelo riso, pelo choro ou pelo espanto, o teatro devolve a luz dos nossos dias."
Em fila indiana, paramos em frente a nossa surpresa: uma casa de grandes colunas e com a maior porta já vista por todos os presentes. Dentro, tapete vermelho, silêncio, respeito e cadeiras enfileiradas como no cinema. Mas não havia pipoqueiro. Uma enorme cortina de veludo escuro escondia o palco e a curiosidade era quase tátil. Com uma meticulosa lentidão, as cortinas começaram a se abrir sozinhas. Ninguém ousou falar.
De repente, um moço vestido de coelho branquinho passou correndo, olhou a platéia demoradamente e disse: "Estou atrasado. Estou atrasado". Então, uma moça caiu do teto e alguém gritou: "É a Alice!". Substituindo a memória pela minha imaginação, digo que naquele momento ouviramse "ohs" e "ahs" e eles se repetiram durante todo o tempo em que Lagarta, a Rainha de Copas e todos os outros personagens de Alice no País das Maravilhas saltaram diretamente dos nossos sonhos para aquele palco. Foi uma das impressões mais fortes que tive em toda a minha infância.
"Ao fim daquele primeiro espetáculo, quando as crianças todas romperam em aplausos e gritos, uma luz bem pequena acendeu no peito das pessoas presentes."
A sensação que tenho é que, ao fim daquele primeiro espetáculo, quando as crianças todas romperam em aplausos e gritos, uma luz bem pequena acendeu no peito das pessoas presentes. Uma luzinha que só hoje percebo que significou o despertar pelas coisas que realmente fazem sentido nesta vida: arte, emoção, magia. E muito antes de essa certeza ter ficado clara em mim o Oriente já conhecia umas das mais belas fábulas para explicar o nascimento da tal luzinha.
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