Caminhar pela cidade de São Paulo e se
deparar com crianças e adolescentes
carentes não é tão raro assim. Grande
e populosa, essa metrópole é cheia de
contrastes, que se evidenciam diante dos
nossos olhos diariamente. Ao encarar essa
realidade, muitas pessoas optam pelo
óbvio: lamentar, reclamar do governo ou
simplesmente achar que se trata de algo
normal. No entanto há ainda quem prefira
a ação ao comodismo e vê essa situação
como um problema não apenas do país,
mas sim de cada um de nós, no nosso
dia-a-dia. Uma história que exemplifica
muito bem isso é a de Flávio Pimenta, de
49 anos, morador do bairro do Morumbi,
região nobre localizada na Zona Sul da
capital. Tudo começou em 1996 quando
ele não pôde conter sua inquietação ao
ver, repetidamente, 3 crianças pedindo
esmolas ali nas redondezas. “Aquilo me
incomodava. Senti que tinha que fazer
alguma coisa. Precisava de uma idéia para
tirá-los daquela vida nas ruas e fazer com
que eles se interessassem por algo bom”,
declara. Diante de sua indignação, não
teve dúvidas, recorreu a uma ferramenta
prazerosa e encantadora, que conhece
muito bem: a música. “Comecei a estudar
essa arte aos 9 anos e a considero muito sedutora. Por isso resolvi utilizá-la para
atrair os pequenos e, assim, ensinar um
pouco do que eu sabia”, conta. E a tática
deu muito certo. Empolgados com o
mundo novo que Flávio apresentava a eles,
os meninos comentavam com os amigos
sobre as aulas de música e as maravilhosas
descobertas instrumentais que faziam. Em
1 mês já havia cerca de 30 jovens querendo
“fazer arte”. O estúdio do músico começou
a ficar minúsculo. O jeito foi levar seus
aprendizes para a rua e dar continuidade
aos ensinamentos ali mesmo, em frente ao
estádio do Morumbi. O som contagiante que
os garotos faziam e a atitude do “maestro”
chamavam a atenção e, cada vez mais,
surgiam novos interessados em participar
do projeto. “Comecei a me envolver de
verdade com a vida daquelas crianças.
Levava ao médico, ao dentista... Quatro anos
depois aluguei uma casa e aí sim comecei a
estruturar o meu sonho. Hoje somos uma
instituição formal”, comemora Flávio.
A recompensa de fazer o bem
Cultivada com muito amor, dedicação e
profissionalismo, a semente plantada por
Flávio começou a crescer e mostrar seu
enorme potencial. Seguindo a linha do universo
dos instrumentos, os participantes, que têm
entre 5 e 18 anos, passaram a aprender canto e
dança, além de poder optar por outras oficinas
e aulas, como inglês, capoeira, informática,
esportes, etc. A banda, que a cada dia alçava
vôos mais altos, já tinha nome: Meninos do
Morumbi. A qualidade musical dessa turma é
tanta que eles já foram convidados para tocar
ao lado de artistas como Caetano Veloso,
Maria Bethânia, Toquinho, Falamansa, Lulu
Santos, Ivete Sangalo e Sandra de Sá. “Quando
se vêem diante de uma oportunidade, esses
jovens mostram uma vontade enorme de
agarrá-la, de fazer tudo bem feito. A energia
deles é muito forte, boa de sentir. Acho que
esses fatores é que fazem o projeto dar tão
certo”, opina Maru Ohtani, professora de canto
da associação. Para se ter uma noção da
projeção desse sucesso, em sua visita ao
Brasil, em março de 2007, uma das
personalidades mais conhecidas no mundo,
o presidente dos Estados Unidos, George W.
Bush, fez questão de conhecer a entidade.
Também não faltam prêmios para esses
meninos talentosos, que já foram reconhecidos
como vencedores por nomes como a
Unesco, a Unicef, o Ministério da Cultura e
muitos outros. Como não poderia deixar de
ser, tamanho reconhecimento envaidece o
idealizador da idéia. “Sempre que alguém
vem me parabenizar por esse trabalho eu
penso: sou o maior privilegiado com isso tudo.
Acompanho a superação desses garotos,
a alegria que sentem quando mostram sua
capacidade. Eu me emociono toda vez que
vejo a gratidão no olhar deles. É muito bom
ver que consegui fazer da minha música uma
ferramenta transformadora”, comenta Flávio,
com um sorriso estampado no rosto.
Abrindo horizontes
Além de reforçar a auto-estima de seus
integrantes e capacitá-los para uma
série de atividades, a entidade desperta
a consciência coletiva e o desejo de
transformação social em vários de seus
participantes, que também passam a
fazer sua parte por um mundo melhor.
É com prazer que a aluna Tatiane Pedreira
dos Santos, de 17 anos, ajuda os novos
alunos com as coreografias. “Já me
ensinaram tanta coisa nesses 10 anos
que freqüento a casa, que hoje me sinto
feliz em repassar isso às pessoas mais
novas que compõem o grupo. Muito
mais do que tocar ou dançar, aprendi
a respeitar o outro, a ser persistente
e a ir atrás dos meus objetivos. E incentivo
isso também nos novatos”, diz. É em
meio aos ensaios que muitos deles
descobrem sua vocação e escolhem a
direção que seguirão mais para frente.
“Desde pequena sonho em ser cantora
e aqui estou me preparando para isso.
Agora sei que posso chegar lá. Eu me
sinto segura para encarar o mundo”,
conta Janaína Cunha de Souza, 15 anos,
freqüentadora do Meninos do Morumbi
há 6. O curioso é que nem sempre esse
caminho tem a ver com música, como
aconteceu com Rogério Oliveira de Paula,
19 anos. Ao completar a maioridade
o rapaz teria que deixar o projeto. No
entanto, graças ao seu desempenho nas
oficinas, foi convidado a permanecer
e incorporar a equipe de funcionários
da casa. “Trabalho com informática, no
banco de dados da associação. O Flávio
sempre nos diz que esse é um lugar de
pessoas que querem vencer na vida.
Isso nos motiva muito, nos faz seguir
em frente. Aqui aprendemos muitas
coisas que vamos levar para sempre e
que vão ser úteis em qualquer profissão
que escolhermos. Isso traz confiança e
orgulho para irmos mais longe” finaliza.
Prestigie essa ação
Atualmente 70% da renda da Associação
Meninos do Morumbi vem das
apresentações da banda. Na maioria
das vezes o show é encomendado por
empresas para abrir seus eventos ou
animar festas de confraternização. O
próximo passo desses talentosos garotos
é a gravação do primeiro DVD. “Estamos
captando recursos para a realização
de mais esse sonho”, comenta Maru
Ohtani. Para saber mais sobre as ações
que acontecem na entidade, acesse o site:
www.meninosdomorumbi.org.br. Quem
deseja sentir na pele toda a energia do
grupo pode assistir aos ensaios. Basta
agendar a visita pelo tel.: (11) 3722-1664.