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Edição 54 - Março/2008
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  Tocando a alma
Eles fizeram da música um verdadeiro porta-voz das desigualdades sociais que sentem na pele todos os dias. E mais do que isso, a transformaram numa poderosa ferramenta para mudar o rumo de suas vidas... Conheça e se encante com a história da Associação Meninos do Morumbi, de São Paulo

PATRICIA AFFONSO

OTO: SHUTTERSTOCKCaminhar pela cidade de São Paulo e se deparar com crianças e adolescentes carentes não é tão raro assim. Grande e populosa, essa metrópole é cheia de contrastes, que se evidenciam diante dos nossos olhos diariamente. Ao encarar essa realidade, muitas pessoas optam pelo óbvio: lamentar, reclamar do governo ou simplesmente achar que se trata de algo normal. No entanto há ainda quem prefira a ação ao comodismo e vê essa situação como um problema não apenas do país, mas sim de cada um de nós, no nosso dia-a-dia. Uma história que exemplifica muito bem isso é a de Flávio Pimenta, de 49 anos, morador do bairro do Morumbi, região nobre localizada na Zona Sul da capital. Tudo começou em 1996 quando ele não pôde conter sua inquietação ao ver, repetidamente, 3 crianças pedindo esmolas ali nas redondezas. “Aquilo me incomodava. Senti que tinha que fazer alguma coisa. Precisava de uma idéia para tirá-los daquela vida nas ruas e fazer com que eles se interessassem por algo bom”, declara. Diante de sua indignação, não teve dúvidas, recorreu a uma ferramenta prazerosa e encantadora, que conhece muito bem: a música. “Comecei a estudar essa arte aos 9 anos e a considero muito sedutora. Por isso resolvi utilizá-la para atrair os pequenos e, assim, ensinar um pouco do que eu sabia”, conta. E a tática deu muito certo. Empolgados com o mundo novo que Flávio apresentava a eles, os meninos comentavam com os amigos sobre as aulas de música e as maravilhosas descobertas instrumentais que faziam. Em 1 mês já havia cerca de 30 jovens querendo “fazer arte”. O estúdio do músico começou a ficar minúsculo. O jeito foi levar seus aprendizes para a rua e dar continuidade aos ensinamentos ali mesmo, em frente ao estádio do Morumbi. O som contagiante que os garotos faziam e a atitude do “maestro” chamavam a atenção e, cada vez mais, surgiam novos interessados em participar do projeto. “Comecei a me envolver de verdade com a vida daquelas crianças. Levava ao médico, ao dentista... Quatro anos depois aluguei uma casa e aí sim comecei a estruturar o meu sonho. Hoje somos uma instituição formal”, comemora Flávio.

A recompensa de fazer o bem

OTO: SHUTTERSTOCKCultivada com muito amor, dedicação e profissionalismo, a semente plantada por Flávio começou a crescer e mostrar seu enorme potencial. Seguindo a linha do universo dos instrumentos, os participantes, que têm entre 5 e 18 anos, passaram a aprender canto e dança, além de poder optar por outras oficinas e aulas, como inglês, capoeira, informática, esportes, etc. A banda, que a cada dia alçava vôos mais altos, já tinha nome: Meninos do Morumbi. A qualidade musical dessa turma é tanta que eles já foram convidados para tocar ao lado de artistas como Caetano Veloso, Maria Bethânia, Toquinho, Falamansa, Lulu Santos, Ivete Sangalo e Sandra de Sá. “Quando se vêem diante de uma oportunidade, esses jovens mostram uma vontade enorme de agarrá-la, de fazer tudo bem feito. A energia deles é muito forte, boa de sentir. Acho que esses fatores é que fazem o projeto dar tão certo”, opina Maru Ohtani, professora de canto da associação. Para se ter uma noção da projeção desse sucesso, em sua visita ao Brasil, em março de 2007, uma das personalidades mais conhecidas no mundo, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fez questão de conhecer a entidade. Também não faltam prêmios para esses meninos talentosos, que já foram reconhecidos como vencedores por nomes como a Unesco, a Unicef, o Ministério da Cultura e muitos outros. Como não poderia deixar de ser, tamanho reconhecimento envaidece o idealizador da idéia. “Sempre que alguém vem me parabenizar por esse trabalho eu penso: sou o maior privilegiado com isso tudo. Acompanho a superação desses garotos, a alegria que sentem quando mostram sua capacidade. Eu me emociono toda vez que vejo a gratidão no olhar deles. É muito bom ver que consegui fazer da minha música uma ferramenta transformadora”, comenta Flávio, com um sorriso estampado no rosto.

Abrindo horizontes

OTO: SHUTTERSTOCKAlém de reforçar a auto-estima de seus integrantes e capacitá-los para uma série de atividades, a entidade desperta a consciência coletiva e o desejo de transformação social em vários de seus participantes, que também passam a fazer sua parte por um mundo melhor. É com prazer que a aluna Tatiane Pedreira dos Santos, de 17 anos, ajuda os novos alunos com as coreografias. “Já me ensinaram tanta coisa nesses 10 anos que freqüento a casa, que hoje me sinto feliz em repassar isso às pessoas mais novas que compõem o grupo. Muito mais do que tocar ou dançar, aprendi a respeitar o outro, a ser persistente e a ir atrás dos meus objetivos. E incentivo isso também nos novatos”, diz. É em meio aos ensaios que muitos deles descobrem sua vocação e escolhem a direção que seguirão mais para frente. “Desde pequena sonho em ser cantora e aqui estou me preparando para isso. Agora sei que posso chegar lá. Eu me sinto segura para encarar o mundo”, conta Janaína Cunha de Souza, 15 anos, freqüentadora do Meninos do Morumbi há 6. O curioso é que nem sempre esse caminho tem a ver com música, como aconteceu com Rogério Oliveira de Paula, 19 anos. Ao completar a maioridade o rapaz teria que deixar o projeto. No entanto, graças ao seu desempenho nas oficinas, foi convidado a permanecer e incorporar a equipe de funcionários da casa. “Trabalho com informática, no banco de dados da associação. O Flávio sempre nos diz que esse é um lugar de pessoas que querem vencer na vida. Isso nos motiva muito, nos faz seguir em frente. Aqui aprendemos muitas coisas que vamos levar para sempre e que vão ser úteis em qualquer profissão que escolhermos. Isso traz confiança e orgulho para irmos mais longe” finaliza.

Prestigie essa ação

OTO: SHUTTERSTOCKAtualmente 70% da renda da Associação Meninos do Morumbi vem das apresentações da banda. Na maioria das vezes o show é encomendado por empresas para abrir seus eventos ou animar festas de confraternização. O próximo passo desses talentosos garotos é a gravação do primeiro DVD. “Estamos captando recursos para a realização de mais esse sonho”, comenta Maru Ohtani. Para saber mais sobre as ações que acontecem na entidade, acesse o site: www.meninosdomorumbi.org.br. Quem deseja sentir na pele toda a energia do grupo pode assistir aos ensaios. Basta agendar a visita pelo tel.: (11) 3722-1664.

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