Se hoje é comum ouvir falar sobre
os benefícios da soja, os poderes do
azeite e as maravilhas do ômega-3, há
muito que agradecer a esta mulher:
Jocelem Mastrodi Salgado, professora
titular de Nutrição do Departamento de
Agroindústria, Alimentos e Nutrição da
Escola Superior de Agricultura Luiz de
Queiroz (ESALQ), da Universidade de
São Paulo, e presidente da Sociedade
Brasileira de Alimentos Funcionais. Ela é
uma pesquisadora séria e apaixonada,
que tem muito a ensinar. Há 20 anos
estuda alimentos capazes de prevenir
doenças, que agora são chamados de
funcionais. “Os estudos acadêmicos só
têm valor quando aplicados no cotidiano
das pessoas”, resume.
Estilo Natural: O que são
alimentos funcionais?
Jocelem Salgado: Aqueles que, além
de nutrir, modificam o metabolismo,
prevenindo e reduzindo determinadas doenças. Mas é claro que eles só dão certo
se forem acompanhados de uma dieta
equilibrada e um estilo de vida adequado —
fazer exercícios físicos regularmente, evitar
o cigarro e consumir álcool com cautela.
EN: Dê exemplos deles.
Jocelem: Alguns dos mais conhecidos
são o azeite de oliva e a laranja. O primeiro
ajuda a reduzir o mau colesterol e
conseqüentemente o risco de infartos e
derrames cerebrais. Já a fruta, riquíssima
em vitamina C, aumenta a resistência
física e favorece a absorção de ferro pelo
organismo. Sua casca tem limonóides,
substâncias que previnem e controlam
o desenvolvimento de certos tumores
e ainda combate os radicais livres. É
importante consumir 2 laranjas por dia.
Outros exemplos são peixes de águas frias,
como sardinha, salmão, anchova, truta e
atum (que devem ser assados ou cozidos,
nunca fritos), ricos em ômega-3. Eles atuam
na prevenção e controle de problemas
cardiovasculares, arteriosclerose,
hipertensão e doenças inflamatórias e
autoimunes, além de proteger contra
alguns tipos de câncer. Também há o
grupo das frutas vermelhas, como amoras
e framboesa, e as azul-escuras, como o
mirtilo (blueberry) e amora preta (deve-se
ingerir de 3 a 4 porções por dia), excelentes fontes de antocianinas, bioflavonóides que
cuidam da saúde do cérebro, impedindo a
degeneração dos neurônios.
A soja também está
entre essas alternativas?
Jocelem: Sim, porque, além de ser rica
em proteína, a ponto de sua qualidade
ser comparada à da carne, contém
isoflavonas, que possuem a estrutura
parecida com a de um hormônio
feminino natural, o estrógeno. Por isso
ameniza os sintomas da menopausa e
da TPM, fases em que a produção desse
hormônio cai. Sem contar que pode
substituir a terapia de reposição, comum
no climatério. Mas para ter esses
benefícios é preciso orientação médica.
EN: Existe alguma opção que pode
representar riscos à saúde?
Jocelem: Eu aboliria o espinafre. Ele é
rico em ácido oxálico, componente que
rouba o cálcio e faz com que ele seja
eliminado do organismo. Em 2002 fiz um
estudo sobre essa verdura e descobri
que ela tem uma substância capaz de
matar animais. Cheguei a achar que
era por conta dos agrotóxicos, então fui
buscar uma espécie plantada em uma
fazendinha, livre de fertilizantes químicos.
E o resultado foi o mesmo. Nos anos 50
era comum adicionar o vegetal no leite
dos recém-nascidos, para enriquecê-lo
com ferro. Só que algumas crianças
acabaram morrendo por conta do excesso
de aditivos tóxicos e antinutricionais
ingeridos diariamente. Por isso seu
consumo não deve ser excessivo, até
porque o ferro nele contido é difícil de
ser absorvido. Não há como estabelecer
uma quantidade mínima segura para
sua ingestão, pois varia conforme a
susceptibilidade de cada um. Sugiro
até que se troque definitivamente o
espinafre por outra hortaliça, como a
couve-manteiga, por exemplo.
EN: Os funcionais podem ajudar no
processo de emagrecimento?
Jocelem: Sim. Itens integrais ricos
em fibras, como por exemplo aveia,
centeio, cevada, farelos de trigo e
arroz, frutas e hortaliças favorecem
a perda de peso, já que aumentam a
saciedade. Outra opção que ajuda a
baixar o ponteiro da balança é o chá
verde. Estudos mostram que tomar
regularmente a bebida aumenta o gasto
energético e a oxidação de gordura.
Vale dizer aqui que dietas de moda não
funcionam — sempre que se deixa de
ingerir um nutriente o corpo sente. Daí a
importância de um cardápio equilibrado.
O que causa obesidade são maus
hábitos alimentares, e não só alterações
de metabolismo . Por isso, a ordem é:
aprenda a comer bem.
EN: O que significa comer bem?
Jocelem:Fracionar as refeições em
5 ou 6 por dia para não ficar muito
tempo em jejum; comer devagar
e mastigar bem; dar uma pausa,
descansando os talheres à mesa; não
consumir sucos nem água durante as
refeições; escolher corretamente o
que se come. Fazer trocas inteligentes,
como laticínios integrais pelos light,
carne vermelha por branca (como peixe
e frango), doces por gelatinas diet ou
frutas e cortar frituras do cardápio.
EN: Os alimentos funcionais
podem curar doenças?
Jocelem: Não dá para falar em cura,
pois não há pesquisas suficientes
que comprovem isso. Mas sei que um
câncer de mama nas fases 1 e 2, ou
seja, quando ainda não há metástase,
pode regredir com uma alimentação
correta. Por isso minha recomendação
é que as pessoas façam uso dos
funcionais enquanto estão bem, para
prevenir males futuros.